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Ciclos menstruais ou mortos televisivos: duas maneiras de contar uma espera. Ou marés ou luas, coisas que caibam nas mãos. Contar números, não histórias. Sobreviver às personagens. Mover o corpo carregado de sentidos, dispensar gruas. Ser um país de refugiados e não partir. Recordar como quem dorme, sem querer e sem falsear. Mentir ao futuro. Cantar, cantar, cantar, até enganar os pássaros.
Regressaram,
os jacarandás. Explodem de roxo eléctrico. Acendem-se aos primeiros calores.
Avassalam o negrume. Têm um pouco de samba no nome. Ou de sumo fresco. Ou de
sol que nasce no mar. Também de ti me ficou esta estranheza, na voz, nos ciclos,
na maneira de florir. Passaram séculos. Estações morreram sobre nós.
Regressaremos, mas não aqui. E tu, raiz de outro verão, estarás na seiva de
todas as vezes que for feliz.
Sou esta meteorologia que pássaro nenhum adivinha:
Não chego a ter um corpo que recordem.
Amo graus subterrâneos.
Descubro raízes que transbordam.
Espero de repente.
Choro sobre meridianos errados.
Entendo a linguagem das estações ferozes.
Sonho com o magma terrestre.
Rezo a palavra decisiva dos animais.
Domingo
Nada rasga o céu. Nós é que somos feitos de papel. Pelas esquinas encontro restos de prostitutas. Uma delas pede-me trinta cêntimos. Espanto-me com esta contabilidade organizada que estipula tão rigorosamente a medida das coisas não vividas. Cêntimos. Trinta. Oiço o metal dos corpos, é outra gente que acorda arrastando ferros bicudos por dentro. São poucos e não se chegam. Saem sozinhos. Olham para cima. Naquele momento consolam-se na vitória sobre os recolhidos, massa silenciada que reza hábitos pequenos atrás das cortinas. A natureza, quase cínica, um pouco má, como uma mulher espantosa que invade um hospício. Volúpia que amanhece, exército de escuridão rendido, água, vento e terra. Nós, sonhos e pressas a bater baixinho, apenas uma insuficiência cardíaca, hoje excepcionalmente em posição de descanso.
Não contes os anos. Conta antes as conchas partidas que levaste da praia. Todos os teus gestos sem sentido. Conta os beijos que te deram e exclui os que não foram música. Conta as canções que não ouviste, porque tas cantaram quando dormias. Os dias que viveste como se estivesses embalado num berço. Conta os pés frios que te acordaram na cama antes de o pesadelo começar. Os bichos que não te pediram nada. As festas inesperadas, sem adereços. Conta os amigos e lembra-te dos nomes. Conta os nomes que começam com letras quentes. Conta os lugares que não precisaste de fotografar. As vezes que te esqueceste das chaves de casa. Conta as portas em que não pudeste entrar mas esperaste. Conta as pestanas das mulheres que amaste e divide por dois. Todas as ocasiões em que dividiste sem hesitar. Conta os espelhos que te fizeram mal e os olhos que foram rigorosos contigo. Conta os segredos que contaste. As coisas inúteis que salvarias de incêndios. Conta o fogo que foste, às vezes, labareda a labareda. Conta a água que te ofereceram. Conta os dias de sede feliz. Conta as luzes apagadas, mas sobretudo, conta as que se acenderam. Conta a mãe, o pai e multiplica-os. Conta as horas de silêncio e as palavras em que pensaste. Conta as sombras que romperam o escuro. As rixas em que matarias pelos teus irmãos. Conta os teus irmãos. Não contes os anos. Parabéns, outra vez.
Apresento-me. Com um nome e um corpo. E basta. Assim começaram as minhas histórias de amor e tudo o resto que quase não importa: empregos, declarações fiscais, aulas de dança, encontros de grupo e provas orais. Estou normalmente de pé. É um equilíbrio sombrio. Sombrio, quero dizer, obscuro. Nada do que define um nome e um corpo é visível: genética casual, memória teimosa, circuitos eléctricos que ligam cabeça e coração. É isto que se move, é isto que tem fome, é isto que tem sede. É isto que chora, é isto que ri. É isto que fica nas camas onde se é qualquer coisa a mais do que isto. Não propriamente o nome ou o corpo, nas suas superfícies lisas a que se chega com a mão. Mas mãos e olhos são o que temos para nos tocarmos. E meu deus, como te enganaste no tamanho dos olhos, pois é tanta a cidade por fora, tanta a gente por dentro. Não vos oiço, multidão íntima. A memória é-me apenas fotografia, revelação sarcástica do que já não existe. Vejo-vos sempre, com as pestanas do avesso. Passeio-nos pela rua, diariamente, com a ideia de que esse olhar impossível é tudo o que me resta de vós. Quanto à genética, combinação hiper tecnológica, bolas com números girando em espiral nas cópulas que geraram corpos e nomes, trago-a também comigo, secreta e avessa ao toque. Definiu o que entendeu, senhora autocrática e indiferente, e sentou-se nos meus gestos. Passeia-se pelos meus mortos quando ainda vivem e ri-se de mim. Sombra que me precede, espécie de continuidade em marcha atrás, impossível de agarrar. Acordo com ela para um mundo que se sabe imenso, que me espera trocista aos pés da cama, menino reguila que se mostra e desata a correr. Os olhos abrem-se para um dia onde repousa o telejornal da véspera, e seguem cegos e impotentes por microcosmos sem importância. Um contador de crueldades roda ao meu lado, em ritmo ascendente. É mecânico, faz barulho, mas dele não há memória, quero dizer, imagem. Descanso para os olhos, inquietude sonora que me torna impune mas não inconsciente. De repente choro, mas não posso eleger-te, nome, acima de todas as coisas. Porque este é o tempo da consciência e os desgostos de amor são quase banais. Há fotografias, há multidões, há uns olhos demasiado pequenos e um par de mãos inútil. Um corpo e um nome que apresento, simples evidências da nossa limitação.
Os milagres são de uma natureza avessa à repetição. De beleza insuperável, são igualmente de uma inutilidade escandalosa. Não mudam nada. Não previnem a solidão. Não alimentam o espírito. Não sabem explicar-se. E no entanto, permanecem chama na memória dos crentes. Raramente, a memória inscreve-se na pele e a esses chamam-lhes estigmatizados.
Impõe-se, depois dos milagres, uma certa discrição. Palavras comedidas e codificadas, entre espiões que sabem a verdade. Espiões místicos, com tanto de deslumbramento como de lógica - precisam sobreviver.
Entre eles, os gestos são contidos. Há uma cerimónia dos corpos que presta homenagem ao fogo que foram. Excepto quando os escombros são horrendos e neles se encontram queimados gritando. Nesse caso, a homenagem é o silêncio.
Sofistico as memórias: sei que não deliro quando nos oiço música.
Mas o assalto é urbano e vem de perto. Agiganta-se um ser contorcido, que chove imenso, de pura dor. Desmancho-me por ele. Às vezes somos tão parecidos. Não aguento a indiferença dos automóveis que o esmagam e as buzinas lembram-me de ti: não são como nós, notas e cordas, infinitos. Por dentro, tudo é líquido: secreções e lágrimas. No interior da selvajaria é que está esta dor, preclaramente irracional, expressando-se em sons primitivos e calados, uivos de nomes impronunciáveis.
Sofistico as memórias: vejo a claridade que inventaste para mim.
Mas deito-me com o escuro. Não decidirei por muito mais tempo caminhar para longe. É a medida de um sonho que não poderei contar-te. Conservo instintos, às vezes sou só este terror de atravessar o asfalto riscado com a imponderabilidade de tudo.
Sofistico as memórias: moves-te à velocidade da minha ternura.
De cabeça pousada ao lado do animal ferido, percebo que ele não entende a frase: não se morre moderadamente. É espantoso como somos tão diferentes.
De resto, sou bastante o teu nome, límpido, sobre fundo branco: o futuro.
De resto, sou bastante o teu nome, límpido, sobre fundo branco: o futuro.
O verde das grades era incompreensivelmente idêntico ao das folhas. Altas, as grades. Como as árvores. De uma crueldade involuntária, porque de tamanho ainda excessivo para a sua infância. Foi por essa altura, tão baixa, que ganhou o hábito de olhar para cima. Chamaram-lhe altivez, queda para o ballet clássico, natureza onírica, problema de coluna. Era apenas uma inclinação para o infinito.
Só se lembrou de olhar para baixo muito mais tarde, quando o conheceu. Fixou os olhos no chão e jurou nunca ir lá parar. Passou a evitar as doenças para os tornar possíveis.
A imortalidade é um luxo do amor ou, então, simples estupidez. Um lugar entre o céu e a terra, sem dúvida.
Só se lembrou de olhar para baixo muito mais tarde, quando o conheceu. Fixou os olhos no chão e jurou nunca ir lá parar. Passou a evitar as doenças para os tornar possíveis.
A imortalidade é um luxo do amor ou, então, simples estupidez. Um lugar entre o céu e a terra, sem dúvida.
O espaço ocupa-se de baixas temperaturas. É assim que se explicam as mãos geladas deste lugar. Podia ter escrito um manual de normas ou uma carta de intenções sobre tão complexo processo. Mas a esta mudança, do cheio para o vazio, apenas um princípio bastou:
Cuspiu sobre a madeira, ela não protestou.
Pegou nos jarros de vidro e atirou-os ao chão. Das flores, nem uma lágrima.
Espalhou dedos sujos sobre os vidros entre as molduras, permaneceram transparentes.
Pegou nas cartas que lhe haviam escrito, amachucou-as. As palavras torceram-se, quase ficaram ilegíveis. Depois rasgou as folhas em pequenos pedaços. E as caligrafias deixaram de se distinguir.
Os móveis, os sapatos, a roupa, os quadros amontoou-os à porta. A um canto, guardou os papéis e sobre eles pousou um livro. Apesar do frio, alguma coisa ali conservava um nome sensível. Fechou a porta, com convicção. Tinha tudo o que precisava para viver.
A Força das Coisas, de Luís Caetano, na antena 2.
Poesia e música, 7 de Janeiro 2012.
(Parte do texto publicado na Criatura 6, dito aos 2'57'')
Poesia e música, 7 de Janeiro 2012.
(Parte do texto publicado na Criatura 6, dito aos 2'57'')
Já estive em lugares áridos, sem possibilidade de mapa. Entrei e saí da mesma maneira, segura de um quotidiano qualquer que supostamente me conta. Narrativa automática, rotatividade maquinal de uma existência tranquila, sem doenças, com sorrisos. Está tudo bem enquanto o corpo for este competente falsário.
É frequente não sentir ou sentir demais, o que é, no fundo, a mesma coisa. Os lugares áridos, no entanto, são toponímia de transparência, onde o desejo de tocar os ossos é mais nítido e de repente a pele é um entrave gigante entre um corpo e a sua realidade.
Um campo de morte transformado em museu, uma mesa noctívaga rodeada de gente, uma cama onde está alguém que começa mesmo ali ao lado. Há uma proximidade impossível, um encontro permanentemente adiado na evidência desse contacto. Os mapas poderiam ser úteis, se soubesse de onde partia.
É tudo polido e correcto, como uma família do século XIX que se compõe geometricamente para o daguerreótipo. Imaginem-se as linhas certas de gente tão íntima quanto estranha, num tempo em que o amor era um efeito secundário dos costumes. Ousado absurdo, o da invenção da fotografia, nesse pequeno grande equívoco do rigor técnico.
Como nessas imagens de perfeição que envelhecem e se mancham, desafio vencido pelos anos, assim eu, no meu tempo informatizado, certa, com razão, ensaio lógico que tantas vezes quero destruir. É saber que temos ossos, saber com os próprios ossos, a única possibilidade de orientação.
XXXXXXXX
A VIAGEM
Chego a este lugar enorme. Enorme em área, digamos suficiente para plantar a sobrevivência vegetal de mil gerações. Enorme em peso: meço pela multidão à minha volta os quilos de memória, ao ponto de acharmos que chega para todos. Enorme em vazio: um calendário evidente goza com as nossas boas intenções.
Sabemos que:
Aqui fizeram-se filmes.
Realizaram-se experiências científicas.
Chegaram comboios de todo o mundo.
Esperavam animais. Construíram estábulos e em cada um cabiam 800.
O arame farpado está intacto. É histórico e já não magoa.
Sem que ficassem com qualquer marca, em um ano, 1 milhão trezentas e cinquenta e sete pessoas visitaram este espaço.
Mais ou menos o número de mortos, no mesmo sítio, num período de 3 anos, a uma velocidade cronometrada de poucas semanas.
Onde agora há máquinas de chocolates, dantes havia: um chá pela manhã, um caldo ao almoço, um quarto de pão ao jantar.
Para trás e para nós, restaram cabelos, dentes, tachos e sapatos.
Estico os braços no meio de tudo e não toco nada. Quero um corpo universal. Em vez disso, alcanço vagamente um americano que pergunta: porque não fugiam? Um sobrevivente diria: se estivesse morto, não teria podido ouvir essa pergunta. Mas o futuro onde estou, interessado, cordial, memorialista, ignora isto: sessenta anos depois, sou eu a geração falecida. Não consigo ouvir as perguntas e mesmo as que formulo são ecos confusos entre noticiários.
Comovo-me com as imagens, não me conformo com as distâncias, apanho aviões. Sou rápida como o século, mas é na lentidão que me perco, à procura. À procura.
XXXXXXXX
A NOITE
Os sorrisos. Uma alegria estranha, tão estranha. Copos. E escuridão. Material vítreo, onde quase tudo é reflexo. Raramente tive passaporte para estas mesas onde a juventude é eterna, da cintura para baixo. Aqui ninguém se confessa, é pecado. Leva-se uma enorme bagagem, o peso do transitório. Somos forasteiros e fugitivos. Gente sem terra. Sem pátria própria. Sem bandeira e tantas vezes sem língua. Gesticulamos muito, há em nós uma vontade irreprimível de nos fazermos entender, de nos entendermos. Traficamos tudo: passados (somos tragédias), presentes (malabaristas da suspensão), futuros (possibilidades absurdamente infinitas).
Plural não é colectivo. Há qualquer coisa de tão democrático em nós! Herdeiros de uma plenitude inútil, onde podemos mas nem sempre queremos. Podemos foder, podemos dizer foder. Podemos amar, podemos dizer amor. Não temos memória de nada exíguo que nos tolha o corpo, celas pequenas ou dor arbitrária, nomes falsos ou moradas incertas. A guerra fria e todas as revoluções ingénuas criaram-nos com tanto carinho. Uma overdose de carinho. Bombas de espaço, fronteiras abaixo, massacres acima.
A amplidão é tal que não há tempo para queixumes. Tudo pode e deve ser velocidade. A nossa vertigem multiplicada pelo chão que pisamos, conta incerta que nos deve expandir. Há que ser invertebrado, partir membros, forçar articulações. Mesmo assim, não chegará para fazer o nosso lugar. Uns tentam mais, sorriem ao seu corpo estendido em sucesso. Aberrações de feira, felizes e com o seu particularíssimo público. Outros não tentam nada, desistem, entristecem. Vencidos de si, nem sequer podem culpar ninguém.
A terminologia bélica adequa-se. Mesmo sem dicionários, somos tantas vezes a entrada da guerra. Saímos à noite, como os animais mais ferozes, e sorrimo-nos desgraçadamente, numa confrangedora incapacidade de sermos o que parecemos. Maltratamo-nos. Reinventamos a tortura. Carrascos sem convicção. Vítimas agressoras. Celebramos o nosso paradoxo. Erguemos copos como se não tivéssemos mãos. Queremos abrigos mas não nos deixamos acolher. Voltamos sozinhos para casas que não sabemos de quem são. Proprietários de tudo, emprestamo-nos à noite como se fossemos baratos. Mas tudo sai caro. Demasiado caro. Ou eu nasci de manhã e nunca aprendi a negociar com a escuridão.
XXXXXXXX
O AMOR
Perdi o primeiro momento em que te vi, como um objecto que largamos porque não vamos precisar. Estaríamos entre livros. Pó. Sabedoria encadernada. Proximidade inocente. A opção de abrir ou fechar.
Sonhei que me escrevias uma carta:
Queria dizer-te que tudo vai mudar. Os olhos que julgas que tens serão outros e nada do que te digam sobre eles fará nenhum sentido, porque serão novos, recém-nascidos. O teu corpo será qualquer coisa que continua no mundo mas de outra forma, como se o chão tivesse perdido a utilidade. O tempo também ganhará contornos diferentes e, mais do que nunca, não o vais conseguir apanhar. A diferença é que estarás feliz com isso. Nós vamos entrar pelos dias um do outro e instalarmo-nos neles como nunca tivesse existido outro lugar. Por isso, prepara tudo para a nossa chegada: vai às consultas médicas, ao cabeleireiro, visita todos os que precisam de ti, alimenta o gato e conta-lhe os segredos urgentes, marca férias no mar com cama de casal, avisa o mundo que agora serás a mesma, mas melhor. Encontramo-nos lá, então.
Chegámos ao mesmo lugar, como combinado.
Lá, perguntaste-me o que fazia quando acordava de noite, antes de ti.
Deixei de adormecer para te responder, diariamente.
Festejei as tuas mãos longas por poder amar-te perto de todos.
O corpo : uma aflição e depois uma escada.
Disseste-me que deus estava entre nós, entre nós os dois, numa varanda.
Éramos fogo pela água. Tudo transbordava. Os poros, os olhos, os dias. Parecia um milagre.
Deus deve ser afinal, como sempre suspeitei, apenas uma ficção.
Fomos breves. Somos silêncio. Serei ferida.
E guardei a tua carta, dentro dos ossos.
In Criatura 6, 2011
Imagino o homem sublime, superando a masculinidade. Sofisticando os traços do corpo pelo frio, química invernosa que produz pintura. Imagem extrema da leveza e da rapidez, pisando a rua com a altivez da singularidade. Um sobre todos, o género impossível a ofuscar todos os exemplares de homem que se cruzam na mesma cidade. Uma cidade possuída por olhos fotográficos, com passeios sem contornos de outros pés. Ligeiros, reinventam a calçada de uma nação conquistadora que a geografia plantou à beira do mar imenso, com o único propósito de o diminuir. Homem-cidade? Homem-conquista? Homem silencioso atravessando quadros que se definem à passagem da mágoa, tombada sobre o equilíbrio de um corpo esguio. Até parece alto, à visão alta dos telhados estendidos sobre um rio que lhe pede: mergulha, mergulha.... O homem não mergulha nunca, há muitos arcos para atravessar. Antes da definição que carrega como uma cruz. Homem crucificado, lembra Cristo, lembra-se de si, olha o sangue e só encontra as chagas. Debruça-se sobre tudo. Quando a noite é noite, ele é a única imagem de homem. Único homem, conceito sensível que não se sabe contar.
2004
2004
CORPO
Uma manhã, olhos grandes. À tarde, boca disforme. Não é só à noite que se vêem pêlos em todo o lado.
Quem nunca foi o lobo mau?
Única linha que não foge, o contorno. Matéria. Diferente de etéreo. Carne, pele, alimento na cadeia das espécies.
Quem quer comer-nos?
Captável, fotografável, pintável. Matéria, sim. Não material. Não se pode trocar. Não serve para comprar. Só para vender.
Quem se dá o seu o valor?
Suave. Seco. Quente. Fértil. Áspero. Perfeito. Estéril. Irregular. Húmido. Líquido. Ilha habitada por dez estações.
Quem não sabe navegar?
Divindade. Sagrado palpável. Deus ao toque, condenado pelos toques. Singularíssimo, manhã única com circulação própria. Ecossistema amoroso.
Quem não abdicou de adormecer?
Passos que podem dançar, gestos que podem amar. Traços cobertos, a mudar pudicamente. Vergastadas inscritas à vista de todos, sem misericórdia. Tempo e espaço subtis, mas andantes.
Quem se consegue parar?
Princípio. Fim. Monstro mutante. Fantasma teimoso. Brincadeira tão séria. Piada com graça, desgraça. Palhaço do interior. Traidor. Amador.
Quem pode esconder o riso?
Bicho solitário, imprevisível, coisinha grandiosa. Soldado oriental, procura honradamente amigar-se com o inimigo. Mas força e consciência desencontram-se nele.
Quem conhece a sua morte?
O imperdoável é um sujeito subtil. Move-se magro entre a gente. Não se diz, não se expressa, não se sente. Criminoso discreto, é sobretudo um assassino. Lento, pouco espectacular. Morte é isto. Além de terrores nocturnos e suores inalcançáveis. Morte é usar a linguagem para coisa nenhuma. Morte é o corpo, sem sentido, hirto por mero acaso da evolução. Morte é isto, mar e rio serem tanto a mesma coisa. Só há margens, separadas, separadas, separadas. Morte é esta bomba, a acontecer em público, tão tranquila. Morte é dinamite que quase não explode. Morte é isto, esta distância entre aqui e lá, um curto-circuito menor em beleza do que as trovoadas. Morte é o hiato absurdo entre um ser e a sua memória. Dizem que ela nos conta. Nada conta quando tudo é morte. Morte é isto, esta fronteira que se perde de vista, que não tem vista. Morte é os olhos não serem nada, não verem nada, não se olharem sequer. Morte é isto, um nome existir só em letras lapidares. Morte é uma dama gelada toda genitália. A fertilidade estilhaçada contra um vidro. Morte é isto, ser o vidro e a fertilidade e a mulher ausente e a ferida do vidro. Morte é chegar a casa naturalmente, como se o exterior e o interior não se distinguissem. Não ter dono nem querer tê-lo. Morte é sem perdão. Terrores nocturnos e suores inalcançáveis. Ou então isto.
O Inverno não é tempo para perder.
Largar alguém. Mas quem?
Esquecer o seu riso e o seu choro, como se nunca tivesse nascido. Esse.
Executar uma amputação, sem perder de vista os afazeres quotidianos.
Planear uma matança, impune e logicamente repartida pelas horas normais.
Morte da vida alheia, da minha, de qualquer coisa que se formou entre elas, como aquelas bolas que cruzava na primária e que me ensinaram a chamar “conjuntos”.
Os dias são pequenos e ventosos e cada hora avança mais rápido para a escuridão.
Expor o corpo esfacelado a tudo, até que o sangue deixe de circular, exigia maior bonomia do ambiente exterior. Mas tudo é gelado. Os arrepios são constantes e, para piorar as coisas, nada disto é uma sala de operações. A matéria dos minutos é fria como o metal das marquesas. Há uma luz fortíssima sobre os meus olhos, que cega. Só não há anestesia.
E o Inverno, o Inverno castiga. Tempo absurdo, de vertigem para a negritude, onde a termómetro se põe de acordo com o céu, mas comigo não.
Uma ideia fria: a sinceridade emigrou. Nada mais nos diremos nesta terra. Nem mesmo quando a Primavera voltar.
Largar alguém. Mas quem?
Esquecer o seu riso e o seu choro, como se nunca tivesse nascido. Esse.
Executar uma amputação, sem perder de vista os afazeres quotidianos.
Planear uma matança, impune e logicamente repartida pelas horas normais.
Morte da vida alheia, da minha, de qualquer coisa que se formou entre elas, como aquelas bolas que cruzava na primária e que me ensinaram a chamar “conjuntos”.
Os dias são pequenos e ventosos e cada hora avança mais rápido para a escuridão.
Expor o corpo esfacelado a tudo, até que o sangue deixe de circular, exigia maior bonomia do ambiente exterior. Mas tudo é gelado. Os arrepios são constantes e, para piorar as coisas, nada disto é uma sala de operações. A matéria dos minutos é fria como o metal das marquesas. Há uma luz fortíssima sobre os meus olhos, que cega. Só não há anestesia.
E o Inverno, o Inverno castiga. Tempo absurdo, de vertigem para a negritude, onde a termómetro se põe de acordo com o céu, mas comigo não.
Uma ideia fria: a sinceridade emigrou. Nada mais nos diremos nesta terra. Nem mesmo quando a Primavera voltar.
Conceberam-me em dia de festa nacional, em ano de algarismos duplos e bicudos, em horas que não poderei lembrar. Momento irrepetível, irreprimível, multiplicado por todos nós. Torrente de células agindo sabiamente. Código genético de um segredo que fica lá atrás. Pai e mãe, agora isto, pai e mãe, talvez não recordem o laço que deram assim. É provável que o tenham atado sem querer. Com mais ou menos ternura. Escusam de argumentar. O laço come, chora, fala, pensa, morre. Em data desconhecida, que importa? Antes que saibamos, pai e mãe arranjarão novo segredo e, como crianças, vão a correr esconder-se entre gargalhadas atrás de uma árvore.
i.
Suponho que tu, como quase tudo, apenas me tenhas envelhecido. Como os cigarros e os minutos. Onde está a prova de termos sido? Juízes calados dizem que sim. Contam-me como eras. Alto e direito, de uma brancura indiferente aos efeitos da meteorologia sobre a melanina dos outros. Não bem pálido, antes de uma lisura que só pode ser clara, com uma luz que só pode ser jovem. Eras no entanto demasiado para que te faltasse saúde. Para que te faltasse. Pouco mais se registou sobre ti, além de todas as tuas perguntas de criança, do teu corpo vulcânico, da forma feminina como abrias livros, como demoravas a reconhecer-te masculino no banho e como te preocupavas com a queda de um cabelo que não tinhas a certeza de ser teu. Nada mais se anotou sobre ti, e muito menos sobre mim nessa época, se é que é que realmente existi assim. Há uma dúvida quase epistemológica sobre tudo isto. Uma incerteza material. Resta obviamente a minha memória, e a essa falta ordem, sequência e ritmo. Falta-lhe ser um bom poema que arrume com toda a prosápia científica e nos esclareça de uma vez.
ii.
Perto. Ideia esmagadora de ti. Esta dor não se abriu à catanada, nem é um móvel com parafusos. Não há boas imagens que a sirvam, portanto. Noto-a em tudo, mas sou cúmplice dela na sua invisibilidade. Fazemos de conta ou vamos para casa, porque temos medo. Mas nada faz mal à dor. Ela está serena no seu meridiano inalcançável. Irremediavelmente existo pelo corpo e aí reside a ironia. Apenas envelheci, mas não o suficiente. E a dor, tão minha, sofre deste paradoxo de ter o teu nome, a tua idade, os teus gestos de amor e de raiva, a tua respiração depois de mim. Viro-me muito na cama, movimento pendular que quer resolver o problema. Não te procuro já, porque entretanto deixei de te desejar. Pelo menos, limpidamente.
iii.
Vestimo-nos da mesma cor por acaso porque queríamos condizer. Na primeira noite, tivemos saudades um do outro até de manhã. Ficámos vorazes. Tentámos arrancar-nos a pele como quem esfrega uma nódoa. Parecia simples e até belo. Mas o gesto revelou-se. Somos sujos. Eu poluída de ti, acontecimento com tantas temperaturas. Sonho com o dia da tua morte, da minha morte, para que recordarmo-nos possa ser outra vez intenso. E assim de alguma forma, alguma coisa (uma frase?) nos devolva. Porque há estes desaparecidos, o bem e o mal que nos fomos, que deixaram de ter horas, voz, presença- mas que podem continuar a existir, talvez.
iv.
As mães dos desaparecidos torturados pelas ditaduras fazem reuniões ao domingo, normalmente em praças. Nessas manhãs, levantam-se e tomam banho, vestem-se e prepararam o pequeno-almoço, na loiça que lavaram na véspera, na cozinha que arrumam todos os dias. “O seu filho morreu”. Quando souberem como foi e delirarem de sofrimento com os detalhes, não vão cuidar da cozinha. Nem para comer, nem para a arrumar.
v.
Ouvi a tua infância. Era um pouco como todas, mas com mais pancada. Nunca te conformaste com a eventualidade, e muito menos com a evidência, da fragilidade. A minha, despudorada e nua, vigiaste-a noites seguidas. O amor e a vigília são sinónimos.
Lemo-nos textos, por respeito. Sabíamos que éramos palavras, e não só as nossas. Repetias-me muito: tu sabes. Como se me pedisses que continuasse contigo, mesmo quando duvidavas do verbo.
Abriste-me uma porta e disseste: olha, este é o meu apelido. Há nas famílias uma corrente de acontecimentos que liga os mortos aos recém-nascidos. Não é o sangue, não é o nome, é a narrativa. Ninguém pode fugir de ser personagem.
A dada altura, quiseste matar-me. Fim da história.
Lemo-nos textos, por respeito. Sabíamos que éramos palavras, e não só as nossas. Repetias-me muito: tu sabes. Como se me pedisses que continuasse contigo, mesmo quando duvidavas do verbo.
Abriste-me uma porta e disseste: olha, este é o meu apelido. Há nas famílias uma corrente de acontecimentos que liga os mortos aos recém-nascidos. Não é o sangue, não é o nome, é a narrativa. Ninguém pode fugir de ser personagem.
A dada altura, quiseste matar-me. Fim da história.
vi.
A catana é um instrumento que serve para abrir caminho no mato ou para esventrar mulheres grávidas. Como eu gostava de encontrar a arma do crime e do parto.
vii.
Só acredito em coisas que vejo, tu sabes. E não posso garantir que tenha visto o teu abraço quente. Não sei bem como era a cegueira de te ter por dentro. A tua velhice precoce, dormi com ela mas não lhe vi a cor. Quis-te por tudo e por nada, com a parte de trás de todos os meus órgãos. Sobrevivi.
viii.
Envelhecer, a menos que se tenha acabado de sair de um campo de concentração, é apenas caminhar para a morte.
Dizem que chorei três semanas em pé, hábito que perdi, felizmente. Não voltei a chorar na vertical. Chamei pelo pai e pela mãe - estou segura de que a sensibilidade nunca me deu para diminutivos e aos quatro anos não bebia cafezinhos. Chorava para resistir. Tinha comigo poucas palavras e demasiada ternura para que o talento da agressividade fosse possível, talento aliás que ainda hoje domino mal. Domino mal o domínio. Questão antiga, do jardim de infância (quase todas as questões antigas são infantis). Não sei por que lhe chamam jardim. O meu tinha salas que esperam. Cabides colectivamente disformes. Um aquecedor a gás. Incêndios. Imaginação. Via labaredas a comerem os casacos, e os casacos já tinham comido o meu nome, e o meu nome só chorava. Ali cresceram crianças, comparáveis a flores formosas, e deve ser por isso que lhe chamam jardim. Quanto a mim, não fui flor e jamais desenvolvi amor à botânica. Resisti quanto pude. Fiz finca-pé com os dias. Com as listas e os desenhos na parede. Com as cadeiras uma ao lado da outra. Com as batas bordadas, de um azul operário. Com os apelidos. Com os lugares que eram apelidos. Com a plasticina. Com a idade. Para trás e para a frente. Gostava dos baloiços. Mas vi logo que apenas dão esperança. Para o movimento mais largo, é preciso continuar a resistir. Ou a chorar.
Ela não via ausência em nada. Buraco ou morte, falta ou dor, palavras que podiam continuar a existir, mas não respiravam. Discreta asfixia derramada sobre o mundo. Os mesmos lugares, contaminados pela novidade de tão urgente reconfiguração da semântica. Sentidos, todos num feliz ao contrário. Não passou muito tempo e as frases fizeram-se seculares, ciência secreta entre duas idades indefinidas. As frases saíam das bocas desembarcadas ali. Ali, em corpos tão excitados como serenos - uma aberração erótica. Certo dia, ela enterneceu-se com pequenas naturezas mortas: sapatos descalçados, uma camisa branca pendurada no armário, um casaco pousado na cadeira. Nestes seres sem vida, que guardavam a passagem óbvia de alguém que nunca deixou de a escandalizar, provava-se a ausência do nada. Ele estava ali. Até que os sapatos, a camisa, o casaco começaram a esperar. Esperaram e esperaram e esperaram. Ninguém voltou. Só as palavras vulgares, exactamente coincidentes com o mundo, cheio de nada.
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