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Li num livro a história de um rapaz cuja infância foi atravessada por uma guerra. Um túnel que lhe furou as vísceras, desabituando-o de lençóis quentes e mãos conhecidas, onde nações crescidas negociaram o futuro. Este rapaz sobreviveu engolindo bagas e vomitando silêncio. Quando a guerra terminou queriam à força que se reconciliasse com a beleza do mundo em campos de refugiados. O rapaz tentou, pois tentar é qualidade da infância, mesmo que esventrada. Tentou, sem pais, sem pátria, sem língua. Passou-se entretanto demasiado tempo, ao ponto de se tornar ilógico chorar qualquer carência primitiva. O rapaz tinha sido sentado a uma mesa posta e tivera a sorte de chegar a esta casa, onde um casal que esqueceu as infidelidades para partilhar a refeição lhe perguntava o que queria comer. Mas, tragédia invisível e tão pouco comentada, o túnel que lhe furara a infância não tinha apenas atingido o estômago, mas uma zona bem menos concreta da sua existência, por ser sempre potência e suposição: o conhecimento. Lembrava-se vagamente de prateleiras com livros, de orações melodiosas e de pais serenos, que amavam jardins. Adulto, não sabia ler e fazer contas de aritmética era uma simples impossibilidade. Não reconhecia o nome de um actor famoso e era incapaz de identificar a Mona Lisa. Queria continuar, como previsto, mas faltava-lhe tudo isto, o que lhe tirou parte significativa da alegria de estar vivo. Fatalidade ou engenho: tornou-se escritor. 
Excerto do livro aqui
"As personagens destas páginas não são homens. A sua humanidade está sepultada, ou eles mesmos a sepultaram, debaixo da ofensa que sofreram ou que infligiram a outrém. Os SS maus e estúpidos, os Kapos, os políticos, os criminosos, os proeminentes grandes e pequenos, até aos Häflinge* indiferenciados e escravos, todos os degraus da insana hirarquia criada pelos alemães, estão paradoxalmente unidos numa única desolação interior".

Primo Levi, Se Isto é um Homem, Editorial Teorema, 2001 (original 1958)
*prisioneiros







Considerada hoje obra fundamental sobre o Holocausto, o primeiro livro de Primo Levi, escrito em 1945, foi recusado por várias editoras, e só viu a luz do dia em 1958, pelas mãos de um pequeno editor de Turim.

Químico de formação, Primo Levi foi libertado de Auschwitz aos 24 anos. Das 650 pessoas que entraram com ele no campo da morte, 2 anos antes, foi um dos poucos sobreviventes do seu grupo, não mais que 20. E escreveu, dedicando grande parte da sua vida ao testemunho sobre o horror nazi. "As coisas que tinha vivido, sofrido, queimavam-me por dentro", disse. "Sentia-me mais próximo dos mortos do que dos vivos, sentia-me culpado de ser homem, porque os homens tinham construído Auschwitz e Auschwitz tinha engolido milhões de seres humanos, muitos amigos pessoais e uma mulher que estava próxima do meu coração. Parecia-me que me purificaria contando, sentia-me semelhante ao velho marinheiro de Coleridege..."

Ao contrário de Jorge Semprum, outro escritor ex-prisioneiro do III Reich, que optou por silenciar a escrita sobre o tema durante quase duas décadas para sobreviver (La Escritura o la Vida, Tusquets Editores, 1995), Primo Levi sobreviveu pela escrita. Pelo menos até 11 de Abril de 1987, quando foi encontrado morto na caixa do elevador do prédio onde morava. Elie Wiesel, também detido num campo de concentração, e distinguido nos anos 80 com o Nobel da Paz, declarou que "Primo Levi morreu em Auschwitz quarenta anos depois".

O Holocausto é, provavelmente, a mais divulgada tragédia da História do século XX. As primeiras imagens foram mostradas no julgamento de Nuremberga, perante uma audiência perplexa e incontinentemente chorosa. Daí para a frente, não têm conta os documentários e filmes produzidos sobre o assunto.  Os campos de concentração nazis entraram em todas as casas ocidentais. Ninguém pode não saber. Mas surge a questão colocada por Walter Benjamin, pensador da Escola de Frankfurt que se recusou a emigrar para os Estados Unidos antes do agravamento da perseguição aos judeus e se suicidou à beira de uma fronteira na véspera de poder dar o salto. Benjamin defendeu, a propósito do advento da fotografia, que a reprodução das obras de arte aniquilava a sua originalidade, a sua aura, a sua autenticidade. (Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Relógio d'Água, 1992).  Parece ser consequência da reprodutibilidade o desgaste, seja da arte ou de qualquer outra coisa.

60 anos depois, chegar a Auschwitz, numa "carreira" cheia de turistas e atravessar o portão onde os nazis inscreveram a sádica máxima "O trabalho liberta" é uma experiência perturbadora, pela incapacidade de sentir verdadeiramente uma realidade que vimos tantas vezes reproduzida. O que se perde? A aura? (do horror) A originalidade? (da experiência) A autenticidade? (da homenagem?) Há, no entanto, paralelos irónicos: chegam pessoas aos magotes, falam diferentes línguas, e preocupam-se em comer (há hoje, no espaço, vários estabelecimentos para o efeito). Não imagino outra forma, se não aquela, organizada, massiva, impessoal, de mostrar ao mundo o museu do horror. Mas não deixa de ser estranho. E tantos horrores do século XX, igualmente graves, alguns mais duradouros, repetidos, hediondos, não têm sequer museu.

Ler Primo Levi resgata o passageiro do século XXI desta espécie de distanciamento incómodo. Relato breve, objectivo, humanista e indubitavelmente autêntico, em Se Isto é Um Homem,  Primo Levi não coloca apenas as questões filosóficas fundamentais, aquelas que eram inconvenientes de imprimir nos anos imediatamente a seguir ao final da Guerra (tão cheios de crimes dos vencedores).  Primo Levi conta. A aleatoriedade da sua sobrevivência. As regras do campo. O dia-a-dia dos prisioneiros. A sua desumanização. E depois de tantos filmes, eis o que surpreende: as botas eram de madeira, e os prisioneiros viviam permanentemente com os pés em ferida; todos os bens obrigatórios no campo, como a roupa, os atacadores, os sapatos e a marmita, eram cedidos pelos carrascos em quantidades mínimas e insuficientes para cumprir as normas, instigando um sistema de troca e comércio crudelíssimo entre os próprios prisioneiros; os oficiais alemães falavam sempre na sua língua e a maioria sofria o desespero de não entender as ordens cujo cumprimento ditava a sua sobrevivência; muitos homens morriam abraçados ao desconhecido com quem partilhavam a cama, por absoluta necessidade de calor humano.

Quando os nazis souberam que o exército russo se aproximava, destruiram parte dos quatro fornos crematórios, fugiram, e condenaram milhares de prisioneiros famélicos a uma longa marcha de quilómetros pelo Inverno polaco, esvaziando praticamente as três estruturas que compunham o complexo Auschwitz-Birkenau. Algumas centenas ficaram: os doentes, os moribundos, os que se conseguiram esconder - isto sabemos dos filmes. Primo Levi acrescenta o essencial para compreender o momento:  sozinhos, sem guardas, sem arame farpado, livres e ainda vivos, aqueles homens não se alegraram. Alguns não se mexeram. Continuaram todos a pensar que morreriam no dia seguinte.

Phillip Roth entrevistou Primo Levi em 1986. Visitou-o na fábrica onde trabalhava, como químico reformado mas ainda no activo. E escreveu:  "Não é provavelmente tão surpreendente quanto se possa pensar que os escritores se dividam, como o resto da humanidade, entre aqueles que ouvem e aqueles que não ouvem". Oiçamos Primo Levi, que sabia ouvir. Ele traz-nos tudo o que precisamos para evitar a desumanização da memória.
Um cão, de raça do frio, vive junto a um armazém, preso a uma corrente, relativamente longa em relação à parede, muitíssimo curta em relação à natureza do bicho. É um animal tímido, embora o porte sugira o contrário. Como alguns tímidos de outras espécies, usa uma estratégia simples para evitar problemas: quando alguém novo se aproxima, faz-se barulhento. Demove a maior parte das abordagens e inspira até um certo medo. Os mais perserverantes rapidamente são premiados com uma manifestação mais franca da timidez estrutural: jamais responde a um chamado, recolhe-se alguns passos à passagem de quem quer que seja, mas aceita cordialmente umas festas.
Parece que este cão, que vejo diariamente, tem um passado mais feliz. Já viveu numa casa sem correntes de metal e passeava nos jardins públicos, como qualquer outro animal de estimação. E haveria tanto a dizer sobre a palavra "estimação" e a vulgaridade das trelas e das normas inter-espécies. Mas deixemo-nos disso. Voltemos ao passado, objectivamente mais feliz para ele. Num desses jardins públicos, costumava encontrar-se com uma cadela. Essa graciosa fêmea continua a viver nas redondezas e quando aqui passa, em passeio com a sua dona, vem cumprimentá-lo. É um momento de simples comunicação canina e é entusiasta. Se o entusiasmo alguma vez os levou a considerar namoro? Esclarece a dona: "Ela é operada, por isso não deixa. Quando algum macho se aproxima dela para isso, ela ladra. Ladra uma, ladra duas. Se eles insistem, ela vai e senta-se. Deste ela é muito amiga."
Não tenho nada a acrescentar.
Desenho de Paulo Van Poser
Por aí

Dois fenómenos estranhos, aparentemente contraditórios:

Numa paragem de autocarro, num fim de dia normal, nem chuvoso, nem frio, nem especialmente quente, normal, várias pessoas compõem uma fila. Com o passar dos minutos, a fila aumenta. A dada altura está muita gente à espera. Finalmente, aparece o autocarro. Logo a seguir, vem outro, a mesma carreira. O primeiro vem bastante mais cheio. Todas as pessoas que estão ali conseguem ver os dois autocarros. A maioria entra no primeiro.



Dois balcões para a mesma função, por exemplo, uma bilheteira de cinema. Num dos balcões, estão cinco pessoas à espera de ser atendidas. O outro está vazio. Não há fila única, trata-se apenas de um grupo. Chega alguém, olha, e coloca-se nessa fila, a maior.

Chegar primeiro e ter contacto com desconhecidos são, para tantos, coisas tão interessantes. Compulsivas mesmo.
Aquilo

A escrita. Dito assim, parece sério. E na verdade é. Argumentos históricos: panfletos mudaram regimes, artigos de jornal derrubaram presidentes, cartas de amor construíram mundos inteiros. E arrasaram impérios. Argumentos literários: ao tempo não sobreverirá nenhum gráfico económico. É uma tecnologia inigualável, a escrita. É séria sim. Ou não. Viveremos privados dela, todos, sem excepção. Nada na nossa animalidade sobrevivente, na nossa natureza gregária, rotineira, reprodutiva se alterará por ela ou pela sua ausência. É uma espécie de mulher principal com quem ninguém precisa de casar. Uma amante inesquecível mas dispensável. Se nos acontecer, inesperadamente ou após dedicada caçada, melhor. Se não, continuaremos – essa fatalidade sobre a qual há pouco a dizer. Mas um texto, acabado, é tão nosso como os dedos ou os fluidos. Cuidamo-los ou odiamo-los, mesquinhamente, grandiosamente. Só no que nos pertence de facto somos capazes de escalas tão díspares. E depois, há o medo. E sobre esse, retiro todos os plurais. A palavra por inventar não existe, já se sabe, ou é apenas uma vulgaridade de estilo. Mas o que fazer àquele novo membro que ia nascer se tivesse escrito aquilo? Aquilo - um feto secreto que dispensou fecundação, amor ou brutalidade para existir e que só se revela se o dermos à luz. E a luz é incerta, e o momento é frágil, e os dias são tanta coisa além desse outro que queríamos ser. Sinto-me grávida de mim própria constantemente. Mas eu tenho medo d’ aquilo. Há vaidade, há uma indigna e ridícula vaidade, no terror de ficar mais feia. Pode-se escrever, pode não se escrever, disse um poeta. Devia saber do que falava.

Andar em pontas:

-demora muitos anos a aprender
-é bonito
-faz-se necessário, quando o chão não tem dignidade
-raramente deixa de doer

É a língua declinada de um corpo em lugar estranho que se quer manter de pé.