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A neve e o amor

Neste dia de calor ardente, estou esperando a neve.
Sempre estive à sua espera.
Quando menino, li Recordações da Casa dos Mortos
e vi a neve caindo na estepe siberiana
e no casaco roto de Fédor Dostoievski.
Amo a neve porque ela não separa o dia da noite
nem afasta o céu das aflições da terra.
Une o que está separado:
os passos dos homens condenados ao gelo escurecido
e os suspiros de amor que se perdem no ar.
É necessário ter um ouvido muito afiado
para ouvir a música da neve caindo, algo quase silencioso
como o roçar da asa de um anjo, caso os anjos existissem,
ou o estertor de um pássaro.
Não se deve esperar a neve como se espera o amor.
São coisas diferentes. Basta abrirmos os olhos para ver a neve
cair no campo desolado. E ela cai em nós, a neve branca e fria
que não queima como o fogo do amor.
Para ver o amor os nossos olhos não bastam,
nem os ouvidos, nem a boca, nem mesmo os nossos corações
que batem na escuridão com o mesmo rumor

Lêdo Ivo
LANÇAR OS DADOS


se é para tentar, vai até ao
fim.
caso contrário, nem vale a pena começar.


se é para tentar, vai até ao
fim.
o que poderá significar perder namoradas,
mulheres, parentes, empregos e
quiçá o juízo.


vai até ao fim.
poderá significar não comer durante 3 ou 4 dias.
poderá significar enregelar num
banco de jardim.
poderá significar a prisão,
poderá significar a irrisão,
a troça,
o isolamento.
o isolamento é a prenda,
tudo o mais é um teste à tua
resistência, à
vontade que tens de chegar
lá.
e hás-de chegar lá
apesar da rejeição e das ínfimas probabilidades
e há-de ser melhor
do que tudo
o que possas imaginar.


se é para tentar,
vai até ao fim.
não existe sensação como
essa.
ficarás a sós com os deuses
e as noites inflamar-se-ão
de fogo.


vai, vai, vai.
vai.


até ao fim
até ao fim.


levarás a vida directamente
até ao riso perfeito, é
o único combate válido
que existe.




Charles Bukowski
(tradução de Vasco Gato)
O CERNE DA POESIA

O cerne da poesia
é a imagem de um rapaz
a fazer música e amor
com uma rapariga cujo interesse
pelo amor e pela música coincide
em ambos com um enorme desespero
os seus íntimos como uma guitarra
dedilhada sob o sol quente e seco
da esperança onde homens selvagens e brutais
vão rasgando a vida como uma página
de um livro muito
antigo
e amarelo


Harold Norse

(tradução de Vasco Gato)



The laughing heart


Your life is your life.
don’t let it be clubbed into dank submission.
be on the watch.
there are ways out.
there is a light somewhere.
it may not be much light but
it beats the darkness.
be on the watch.
the gods will offer you chances.
know them.
take them.
you can’t beat death but
you can beat death in life, sometimes.
and the more often you learn to do it,
the more light there will be.
your life is your life.
know it while you have it.
you are marvelous
the gods wait to delight
in you.



Charles Bukowski

Tal como a natureza
possui um significado inevitável e franco,
ao conquistar-me, ele
confirma
a cândida lei do poder.
Ele é ferozmente livre
assim como um instinto vigoroso
a meio de uma ilha desabitada.
Ele limpa a poeira da rua
dos seus sapatos
com pedaços arrancados à tenda de Majnun...
Tal como uma alegre canção popular,
ele é bruto e apaixonado.
O meu amado
é uma pessoa simples
que eu
nesta estranha e ominosa terra
escondi como o último vestígio
de uma grande religião
no bosque dos meus seios.

Forrugh Farrokhzad
(tradução de Vasco Gato)
POEMA DE CANÇÃO SOBRE A ESPERANÇA
               I
Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios —
Os melhores lírios —
E as melhores rosas
Sem receber nada.
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.
                II
Usas um vestido
Que é uma lembrança
Para o meu coração.
Usou-o outrora
Alguém que me ficou
Lembrada sem vista.
Tudo na vida
Se faz por recordações.
Ama-se por memória.
Certa mulher faz-nos ternura
Por um gesto que lembra a nossa mãe.
Certa rapariga faz-nos alegria
Por falar como a nossa irmã.
Certa criança arranca-nos da desatenção
Porque amámos uma mulher parecida com ela
Quando éramos jovens e não lhe falávamos.
Tudo é assim, mais ou menos,
O coração anda aos trambulhões.
Viver é desencontrar-se consigo mesmo.
No fim de tudo, se tiver sono, dormirei.
Mas gostava de te encontrar e que falássemos.
Estou certo que simpatizaríamos um com o outro.
Mas se não nos encontrarmos, guardarei o momento
Em que pensei que nos poderíamos encontrar.
Guardo tudo,
Guardo as cartas que me escrevem,
Guardo até as cartas que não me escrevem —
Santo Deus, a gente guarda tudo mesmo que não queira,
E o teu vestido azulinho, meu Deus, se eu te pudesse atrair
Através dele até mim!
Enfim, tudo pode ser...
És tão nova — tão jovem, como diria o Ricardo Reis —
E a minha visão de ti explode literariamente,
E deito-me para trás na praia e rio como um elemental inferior,
Arre, sentir cansa, e a vida é quente quando o sol está alto.
Boa noite na Austrália!
17-6-1929
Álvaro de Campos, Livro de Versos, Estampa, 1997

(...) perguntou-me se tinha medo do escuro e eu senti uma coisa cá dentro, um consolo, um júbilo, um alívio, a certeza de regressar a casa a seguir a uma viagem sem fim porque quando uma mulher pergunta a um homem se tem medo do escuro é sinal que quer ficar com ele para sempre, é sinal que quer ficar com ele muito tempo.

António Lobo Antunes, O Manual dos Inquisidores, Publicações D. Quixote, 1996
CALGARY 


Don't you cherish me to sleep
Never keep your eyelids clipped
Hold me for the pops and clicks
I was only for the father's crib

Hair, old, long along
Your neck onto your shoulder blades
Always keep that message taped
Cross your breasts you won't erase
I was only for your very space

Hip, under nothing
Propped up by your other one, face 'way from the sun
Just have to keep a dialogue
Teach our bodies: haunt the cause
I was only trying to spell a loss

Joy, it's all founded
Pincher with the skin inside
You pinned me with your black sphere eyes
You know that all the rope's untied
I was only for to die beside

So it
ʼs storming on the lake
Little waves our bodies break

There's a fire going out,
But there's really nothing to
the south



Bon Iver
De tout ce que j'ai dit de moi que reste-t-il
J'ai conservé de faux trésors dans des armoires vides
Un navire inutile joint mon enfance à mon ennui
Mes jeux à la fatigue
Un départ à mes chimères
La tempête à l'arceau des nuits où je suis seul
Une île sans animaux aux animaux que j'aime
Une femme abandonnée à la femme toujours nouvelle
En veine de beauté
La seule femme réelle
Ici ailleurs
Donnant des rêves aux absents
Sa main tenue vers moi
Se reflète dans la mienne
Je dis bonjour en souriant
On ne pense pas à l'ignorance
Et l'ignorance règne
Oui j'ai tout espéré et j'ai désespéré de tout
De la vie de l'amour de l'oubli du sommeil
Des forces des faiblesses
On ne me connaît plus
Mon nom mon ombre sont des loups.



Paul Éluard, in Comme Deux Gouttes d'Eau, Éditions Surréalistes,1933


Bien sûr, nous eûmes des orages
Vingt ans d`amour, c`est l`amour fol
Mille fois tu pris ton bagage
Mille fois je pris mon envol
Et chaque meuble se souvient
Dans cette chambre sans berceau
Des éclats des vieilles tempêtes
Plus rien ne ressemblait à rien
Tu avais perdu le goût de l`eau
Et moi celui de la conquête

Mais mon amour
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l`aube claire jusqu`à la fin du jour
Je t`aime encore tu sais je t`aime

Moi, je sais tous tes sortilèges
Tu sais tous mes envoûtements
Tu m`as gardé de pièges en pièges
Je t`ai perdue de temps en temps
Bien sûr tu pris quelques amants
Il fallait bien passer le temps
Il faut bien que le corps exulte
Finalement finalement
Il nous fallut bien du talent
Pour être vieux sans être adultes

Oh, mon amour
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l`aube claire jusqu`à la fin du jour
Je t`aime encore, tu sais, je t`aime

Et plus le temps nous fait cortège
Et plus le temps nous fait tourment
Mais n`est-ce pas le pire piège
Que vivre en paix pour des amants
Bien sûr tu pleures un peu moins tôt
Je me déchire un peu plus tard
Nous protégeons moins nos mystères
On laisse moins faire le hasard
On se méfie du fil de l`eau
Mais c`est toujours la tendre guerre

Je t`aime encore tu sais je t`aime.

Jacques Brel
Para a minha mãe