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"Para mim, ficará sempre como um mistério, que talvez um dia a história explique, que tantos países devastados por uma crise económica desencadeada pelas teorias liberais da administração Bush tenham depois recorrido aos autores morais do crime para apagar o incêndio que eles próprios tinham ateado. Mas tenho como indiscutível que só chegámos aqui porque a esquerda, a esquerda europeia, não foi capaz de se livrar de dogmas paralisadores e entender como o mundo estava a mudar e a própria noção de justiça social tinha de mudar com ele. Portugal é um bom exemplo de como toda a esquerda, desde as múmias leninistas aos socialistas deslumbrados com o dinheiro fácil, passando pelo BA (esquerda Bairro Alto) passaram décadas a venerar como boi sagrado uma legislação e doutrina laboral que tornava impossível despedir o pior dos trabalhadores, assim protegendo os mediocres, os calões e os batoteiros das falsas baixas, nivelados com os que queriam trabalhar e nunca conseguiram sair da cepa torta. Os baixos salários, uma das características endémicas da nossa economia, não foram apenas impostos por patrões sem escrúpulos, mas também por um sindicalismo que sempre quis nivelar todos por igual, acabando a nivelar todos por baixo. Sem um estremecimento de apreensão, a nossa esquerda sentou-se confortavelmente em cima dos "direitos adquiridos", recusando-se a entender que não podia ser adquirido o que não era financeiramente sustentável- nas reformas, na saude publica, na imensa panóplia de actividades subsidiadas. A cegueira e a má fe da esquerda prepararam o caminho para a ruína dos países e para a vingança histórica da direita económica a que agora assistimos."

Miguel Sousa Tavares, "Tem de Haver Alternativa", Expresso, 8 de Setembro 2012


"A religião diz-nos: o corpo é uma culpa. A ciência diz-nos: o corpo é uma máquina. E o corpo diz-nos: eu sou uma festa"

Eduardo Galeano


Onde queres revólver, sou coqueiro
Onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alta, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco

E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! bruta flor do querer

Ah! bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato, eu sou o espírito

E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor

Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Ah! bruta flor do querer

Ah! bruta flor, bruta flor
Onde queres comício, flipper-vídeo

E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
Onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim

Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim


Caetano Veloso 
7 Agosto 1942
O que leva alguém a ser pequeno quando pode ser grande? Não será uma modéstia que não é apropriada ao cargo, não será humildade porque esta, quando verdadeira, não se avizinha do poder. Será outra coisa: uma combinação das limitações para a missão a que se foi destinado com uma atracção pela pequenez. Disto resulta, passado um ano em que não se quis ter um Ministério da Cultura e se acabou por ter um secretário de Estado da dita, sem poder para decidir, sem assento no Conselho de Ministros, sem voz, sem representar ninguém e, ademais, apoucando-se por falta de perfil e de projecto e de programa.


António Pinto Ribeiro, "Um Ano Depois", aqui
Ipsilon/Público, 20 Junho 2012


P. ¿Puede la literatura servir para ajustar cuentas?
R. Con la vida. La literatura es un ajuste de cuentas con la vida, porque la vida no suele ser como la esperábamos. Uno busca un sentido a todo esto y a la vez un vago placer estético. ¿Por qué tomarnos tanto trabajo si la literatura no puede cambiar el mundo, no influye en la mejora de nada, ni siquiera cuando denuncia los peores crímenes de la humanidad? No lo sé, pero su origen y su fin está en dar testimonio, tanto de las pesadillas como de los sueños felices de todos nosotros.
Juan Marsé, ao El País

"Eu fui um homem qualquer. Mais nada", disse Drumond de  Andrade a Zuenir Ventura, em entrevista publicada dia 19 de Novembro de 1980, na revista Veja.

Uma conversa rara entre o poeta e o jornalista. Rara, pelos homens que junta. Rara, por envolver um jornalista. Drummond de Andrade era considerado, como é referido neste encontro, demasiado reservado para os desejos da sempre curiosa imprensa. Muitas vezes perguntam a Zuenir Ventura como conseguiu: plantou-se à porta da casa de Drummond? Aguentou fome, chuva e vento? Foi o mais chato dos chatos? Conhecia alguém da família? Muito mais simples:
Zuenir Ventura estava nos seus afazeres diários quando recebeu um telefonema da editora de Drummond de Andrade, a pedir uma entrevista ao poeta. Situação bizarra. Pensou que era "trote" dos colegas, essa era uma brincadeira comum entre jornalistas. Respondeu com sentido de humor e desligou. Não voltou a pensar no assunto. Mais tarde, a editora insistiu: Drummond quer mesmo dar esta entrevista. Zuenir saiu disparado da redacção, com medo de perder uma oportunidade tão preciosa. O jornalista jura a pés juntos que, até hoje, não conhece a razão da escolha, embora não faltem motivos.

*Um agradecimento muito especial ao Zuenir Ventura, por me ter contado esta história e por facilitar o acesso a este pedaço de História.



"A inocência do olhar é uma coisa extraordinariamente difícil de atingir. (...) A gente despir-se daquilo que sabe para perceber aquilo que vê." 

Gérard Castello Lopes, 15 de Fevereiro de 2011, em Pessoal e Transmissível 
"Sometimes you have to do something unforgivable just to go on living"


Carl Gustav Jung, no filme A Dangerous Method, de David Cronenberg 
Há um conto de Tolstoi que diz que o homem só precisa de sete palmos de terra para se cobrir. Precisa dessa terra, que é a sua inscrição. O acaso do nascimento, que é pura contingência, é qualquer coisa que nos adjectiva. Uma pessoa que nasce num país, que tem uma língua secular, que tem uma história singular, tem uma segunda ou primeira natureza, na qual se define ou ela nos define a nós. E mesmo quando se tem, como eu, uma grande permanência num país que não é o nosso, há um momento ou outro em que a palavra que não se percebeu permite saber que não estamos em nossa casa. O que define realmente as pessoas é o não-dito. Tudo o que é explícito pertence à ordem do que é intercomunicável.

Eduardo Lourenço, em entrevista à Actual  Expresso, 23 Dezembro 2011
Tatoo

(...)
Na verdade, o manifesto de Joseph Beuys que na década de setenta reclamava a arte para todos os cidadãos, os rituais corporais de Hermann Nitcher que esteticizavam as cicatrizes e o corpo tingido ou as acções-manifestos do grupo vienense onde protagonizava Arnuf Rainer que reclamavam a deslocação de uma arte nova para o corpo do artista têm agora, cinquenta anos depois, a sua materialização nos corpos actuais.

Esta é a body art deste século e os cidadãos que a fazem sem o saberem estão a realizar, na prática, um dos maiores desejos do filósofo Michel Foucault: o da assunção por cada sujeito de uma política do corpo. Hoje já não se proclamará de forma submissa: este é o meu corpo, mas é possível afirmar no acto do tatoo: Este corpo é meu!

António Pinto Ribeiro, Público, 24 de Junho de 2011
versão completa aqui
A arte de vanguarda produzida nas últimas três ou quatro décadas do século XX é, muitas vezes, uma coisa medíocre, ininteligível e desinteressante. A tremenda confusão de valores a que se chegou deu lugar a uma floresta de equívocos cada vez mais emaranhada. (...)
Não viria daí grande mal ao mundo, se muitas dessas produções de artístico arreganho não tivessem passado a existir na promiscuidade escandalosa de um circuito que, hoje em dia, passa pelos próprios artistas, pelos galeristas, pelos críticos de arte, pelos coleccionadores, pelos museus, pelos consultores de uns e doutros, pelas leiloeiras, pelas instituições financeiras, e provavelmente por mais entidades, incluindo figuras da política.

 LIKING IS FOR COWARDS, GO FOR WHAT HURTS
(…)  
To speak more generally, the ultimate goal of technology, the telos of techne, is to replace a natural world that’s indifferent to our wishes — a world of hurricanes and hardships and breakable hearts, a world of resistance — with a world so responsive to our wishes as to be, effectively, a mere extension of the self.

Let me suggest, finally, that the world of techno-consumerism is therefore troubled by real love, and that it has no choice but to trouble love in turn.

(…)
 

A related phenomenon is the transformation, courtesy of Facebook, of the verb “to like” from a state of mind to an action that you perform with your computer mouse, from a feeling to an assertion of consumer choice. And liking, in general, is commercial culture’s substitute for loving.

The striking thing about all consumer products — and none more so than electronic devices and applications — is that they’re designed to be immensely likable. This is, in fact, the definition of a consumer product, in contrast to the product that is simply itself and whose makers aren’t fixated on your liking it. (I’m thinking here of jet engines, laboratory equipment, serious art and literature.)

But if you consider this in human terms, and you imagine a person defined by a desperation to be liked, what do you see? You see a person without integrity, without a center. In more pathological cases, you see a narcissist — a person who can’t tolerate the tarnishing of his or her self-image that not being liked represents, and who therefore either withdraws from human contact or goes to extreme, integrity-sacrificing lengths to be likable.


If you dedicate your existence to being likable, however, and if you adopt whatever cool persona is necessary to make it happen, it suggests that you’ve despaired of being loved for who you really are. And if you succeed in manipulating other people into liking you, it will be hard not to feel, at some level, contempt for those people, because they’ve fallen for your shtick. You may find yourself becoming depressed, or alcoholic, or, if you’re Donald Trump, running for president (and then quitting).

Consumer technology products would never do anything this unattractive, because they aren’t people. They are, however, great allies and enablers of narcissism.

(…)


The simple fact of the matter is that trying to be perfectly likable is incompatible with loving relationships. Sooner or later, for example, you’re going to find yourself in a hideous, screaming fight, and you’ll hear coming out of your mouth things that you yourself don’t like at all, things that shatter your self-image as a fair, kind, cool, attractive, in-control, funny, likable person. Something realer than likability has come out in you, and suddenly you’re having an actual life.

Suddenly there’s a real choice to be made, not a fake consumer choice between a BlackBerry and an iPhone, but a question: Do I love this person? And, for the other person, does this person love me?


There is no such thing as a person whose real self you like every particle of. This is why a world of liking is ultimately a lie. But there is such a thing as a person whose real self you love every particle of. And this is why love is such an existential threat to the techno-consumerist order: it exposes the lie.

This is not to say that love is only about fighting. Love is about bottomless empathy, born out of the heart’s revelation that another person is every bit as real as you are. And this is why love, as I understand it, is always specific.

(…)


The big risk here, of course, is rejection. We can all handle being disliked now and then, because there’s such an infinitely big pool of potential likers. But to expose your whole self, not just the likable surface, and to have it rejected, can be catastrophically painful. The prospect of pain generally, the pain of loss, of breakup, of death, is what makes it so tempting to avoid love and stay safely in the world of liking.




But when you go out and put yourself in real relation to real people, or even just real animals, there’s a very real danger that you might love some of them.

And who knows what might happen to you then?



"You can't connect the dots looking forward; you can only connect them looking backwards"
Steve Jobs (1955-2011)

Todos já fomos artistas plásticos:"As pessoas às vezes me perguntam 'quando você começou a ser artista plástico?'. Eu sempre falo não me lembro quando comecei mas me lembro quando todo o mundo deixou de ser (...) Acho que toda a criança nasce com uma interacção muito sólida com o mundo visual (...) Você já desenhou, já brincou com massinha (...) Eu acho que o artista de uma certa forma é o tipo que mantém uma relação com esse universo pré-linguístico" .