UM ATAQUE DE FEBRE

Existem na nossa vida manhãs privilegiadas em que chega até nós a advertência, em que logo que acordamos ressoa para nós, através de uma deambulação ociosa que se prolonga, uma nota mais grave, como quem se demora, de coração confundido, a manejar um a um os objectos familiares do seu quarto no instante de uma grande partida. Qualquer coisa como um alerta longínquo se introduz em nós naquele vazio claro da manhã mais pleno de presságios do que os sonhos; é talvez o ruído de uns passos isolados numa calçada, ou o primeiro grito de um pássaro que chega debilmente através do último sono; mas esse ruído de passos  desperta na alma uma ressonância de catedral vazia, esse grito passa como que sobre os espaços do horizonte, e o ouvido apura-se no silêncio sobre um vazio em nós que de repente tem outro eco além do mar. A nossa alma purgou-se dos seus rumores e do vozear da multidão que a habita; uma nota fundamental rejubila nela, despertando-lhe a exacta capacidade. Na medida íntima da vida que nos é devolvida, renascemos para a nossa força e para a nossa alegria, mas às vezes essa nota é grave e surpreende-nos como o passo de um transeunte que faz ressoar uma caverna: é que uma brecha se abriu durante o nosso sono, é que uma parede nova se desmoronou sob a pressão dos nossos sonhos, e teremos que viver agora por longos dias como num quarto familiar cuja porta desse inopinadamente para uma gruta.

Julien Gracq, A Costa das Sirtes, Vega (tradução de Pedro Tamen)

Sem comentários:

Enviar um comentário