Imitação da Água

De flanco sobre o lençol,
paisagem já tão marinha,
a uma onda deitada
na praia, te parecias.

Uma onda que parava
ou melhor, que se continha;
que contivesse um momento
seu rumor de folhas líquidas.

Uma onda que parava
naquela hora precisa
em que a pálpebra da onda
cai sobre a própria pupila.

Uma onda que parara
ao dobrar-se, interrompida,
que imóvel se interrompesse
no alto da sua crista

e se fizesse montanha
(por horizontal e fixa)
mas que ao se fazer montanha
continuasse água ainda.

Uma onda que guardasse
na praia, cama, finita,
a natureza sem fim
do mar em que participa,

e em sua imobilidade,
que precária se adivinha,
o dom de se derramar
que as águas faz femininas.

mais o clima de águas fundas,
a intimidade sombria
e certo abraçar completo
que dos líquidos copias.

João Cabral de Melo Neto, Poemas para Ler na Escola, Objectiva, 2009  (selecção de Regina Zilberman)

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