(...)
-Confesso que nunca me passou pela cabeça ouvir falar formigas, e muito menos através de microfones!
-Ora essa! Então não sabias que antigamente os animais falavam?
-Sim...antigamente... Mas agora...
-Na verdade- admitiu a formiga- a maioria dos animais tornou-se muda. Que queres? Os homens diziam tantos disparates que, certo dia, os bichos, para não se confundirem com vocês, votaram a greve geral, a greve do silêncio que ainda hoje dura...Greve apenas furada pelos papagaios e outras aves sem categoria...
-É o costume. Não há greve sem "amarelos"- interrompeu João Sem Medo para não ficar calado.
Mas a formiga emendou com prontidão:
-Nós não lhes chamamos "amarelos". Chamamos-lhes "verdes".
-Ah! -exclamou o rapaz, com admiração cortês.
Ao que se seguiu a pergunta lógica para continuar a conversa:
-Mas vocês não são "verdes", pois não?
-Nós?-tossiu a formiga rouca de catarro indignado. - Nós"verdes"? De maneira nenhuma. Pelo que ouço, ignoras totalmente as circunstâncias em que os bichos proclamaram a greve do silêncio... Na mesma ocasião resolveram instalar num sítio pouco acessível o Museu Vivo da Fábula, onde continuariam a falar como na Idade de Ouro...
-E eu encontro-me nesse tal museu misterioso?...
-Pois claro... Descobriste por acaso a entrada secreta para o país da fábula descrito pelos nossos grandes cronistas Esopo, Fedro e La Fontaine...
-É curioso!...-comentou João Sem Medo, mau grado seu, interessado. - E vocês mantêm a mesma moral das fábulas?
A formiga não se apressou a responder. Reflectiu alguns momentos antes de adiantar estas palavras cautelosas:
-Bem vês...Os nossos costumes foram evolucionando devagarinho...
-Já reparei. Vocês são civilizadíssimas. Até têm microfones.
-Se medes a civilização por maquinismos e aparelhómetros, ainda não viste nada... - gabou-se a formiga. - Nem supões como são agora os nossos formigueiros providos de electricidade, elevadores, radar, camionetas para transportar os alimentos para o Celeiro Central, máscaras contra o "DDT", computadores, etc.,etc.
E após o silêncio fatal que corta sempre todos os diálogos, prosseguiu digna e bem falante como se repetisse trechos de "sebenta" , embora pegados com cuspe:
-Mas... Bem... Aqui...como em todas... as sociedades...Percebes? Bem...Os animais dividem-se em dois grupos: os que teimam...Sim, os teimosos que respeitam as aparências mortas...E os criadores de ilusões de novas aparências...
Chegando aqui, respirou profundamente, tomou balanço, e terminou num fôlego:
-Nós, como já tiveste ensejo de verificar, pertencemos ao segundo grupo.
João Sem Medo lançou então esta sonda indiscreta:
-E as cigarras? Como despedem vocês agora as cigarras quando estas mandrionas vêm esmolar comida? Mandam-nas dançar como dantes?
A formiga tropeçou na resposta:
-Bem... Referes-te à clássica sentença de "Ah! cantaste? Pois dança agora", não?
E mais à vontade, apoiada no sinal de cabeça confirmativo de João Sem Medo:
-Não te ocultarei que nas últimas décadas vários movimentos revolucionários das Obreiras "dêmos de comer às cigarras" e "Abaixo La Fontaine!" perturbaram o sossego secular dos formigueiros... E impuseram até, aqui e além, novos fechos morais à famosa fábula, condizentes com a política não egoísta das camadas novas, amantes cem por cento da música concreta das cigarras. Por infelicidade, a experiência catastrófica de tentar sustentar os pobres musicantes-poetas, com a nossa alimentação de formigas práticas, desiludiu os idealistas mais inveterados. Não tardámos a averiguar que as cigarras não toleravam os mantimentos dos nossos armazéns (temos intrínseca necessidade de comidas diversas) e morriam na mesma... Umas a dançar, outras a cantar e todas em beleza, pois constava (elas próprias espalhavam essa lenda) que se alimentavam metafisicamente com cheiro das ervas e da luz do Sol... Da luz do Sol, imagina. Em resumo, pouco a pouco acabámos por...
Acanhou-se insegura. Mas com a ajuda do olhar interrogativo de João Sem Medo desembuchou:
-Acabámos por...comê-las.
-Por COMÊ-LAS?
-Sim, comê-las. Cheias de remorsos, mas que remédio? Seria um crime desaproveitar aquela carninha tão fresca e tão lírica, não achas? As asas então são uma delícia... Dão-nos uma tal sensação de liberdade...
(...)

José Gomes Ferreira, Aventuras de João Sem Medo-Panfleto Mágico em Forma de Romance, Leya, 2009
*inicialmente publicado em fascículos num jornal, em 1933, teve primeira edição, compilada, em 1963.

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